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quarta-feira, 31 de julho de 2013

Inquietudes: Chaleira de Porcelana


 



































                                                                                                     

                        Chaleira de porcelana

Repetidas vezes na vida recebi lições sobre materialismo, lições essas que aprendi de forma cruel e praticamente cíclica. Incêndio, furto, mudança extraviada, umidade e toda a sorte de eventos se repetiam, sumindo com bens materiais parcial ou completamente, inclusive coisas cujo único valor era o emocional.  Nessas horas eu olhava para o céu e enxergava um quadro negro, onde parecia estar escrito a giz divino “Retenhas e perderás” – assim mesmo, com voz magistral e profética. 
Minha mãe não era uma pessoa que alguém pudesse considerar materialista, o que vejo na realidade é que ela era uma pessoa humilde e, deste modo, dava muito valor a tudo o que conquistava, mesmo que fosse um pano de prato novo. O problema, na verdade, é que ela dava tanto valor às coisas, que preferia não usá-las ou, usava somente em “momentos especiais”, como dizia ela. E não importava minha ladainha semanal de que todo momento na vida era único e, portanto, especial. Havia coisas que ela possuía há anos, sem nunca ter usado. Algumas ela havia usado somente uma vez, depois do meu melhor sermão da montanha, e mesmo assim havia embalado novamente.
Certo dia, meus pais resolveram visitar meus avós em outro estado e pretendiam demorar por lá. Minha mãe guardou tudo o que mais lhe importava num quartinho especial, que trancou a sete chaves, e ainda colocou um guarda-roupa na frente da porta. Segundo meus pais, caso alguém invadisse a casa naquele período de viagem, os bens “mais preciosos” estariam seguros (coisas realmente de valor foram para casa de vizinhos).
Acontece que como todos bem sabem, não mandamos no nosso destino, e durante essa viagem e nos meses que se sucederam a ela, meus pais faleceram. Eles nunca voltaram a morar naquela casa, e quando voltei lá, sozinha, para reabrir a casa dos meus pais, encontrei o quartinho. Tudo estava absolutamente destruído pela umidade do local: Panos de prato, toalhas de mesa e de banho, panelas... Tudo estava embolorado, enferrujado ou corroído pelas traças. Essas coisas acontecem, quem mora no litoral sabe, embora eu nunca tenha visto acontecer num espaço de tempo tão curto.
Naquele momento, chorei muito, talvez até mais do que no enterro dos meus pais, mas não pelos objetos perdidos, eram apenas objetos. Chorei pela representatividade daquela cena. Quando morremos, não somos o que deixamos para trás, não somos o que deixamos para as pessoas, somos aquilo que deixamos nas pessoas, porque passamos a existir em suas memórias. Eu estava definitivamente deprimida, mas no fundo daquela depressão, consegui encontrar algo bom – todos os momentos bons que passamos naquela casa. Assim como consegui encontrar algo bom no fundo daquele quartinho: Lá, embaixo de toda aquela sujeira e umidade, encontrei uma chaleira de porcelana, a chaleira que eu conhecia desde a minha infância, a qual era usada em “ocasiões especiais”, mas também para tornar especiais mesmo as ocasiões mais simples, principalmente nas tardes de inverno. E ali, naquele momento, eu prometi para mim mesma usar tudo o que eu pudesse e o quanto eu pudesse, usar a vida!
Esperar o momento crucial, que talvez já tenha passado ou nunca chegue. Fazer dos seus dias rascunhos do que poderia ser mesmo sabendo que não vamos poder passar a limpo a vida. Quantos de nós ainda fazemos isso?

E você, onde está guardando o que considera mais precioso? Trancado num quartinho úmido a sete chaves? Ou o que é precioso para você está à vista de todos, ao alcance das mãos mesmo na correria cotidiana e - ao mesmo tempo - bem mais protegido do que se estivesse num cofre de banco?


Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos
Na mesma direção
Aonde está você agora
Além de aqui dentro de mim

(Legião Urbana - Vento no Litoral)





                                                         Em memória de Sueli Mendes Lopes
                                                        (09 de agosto de 2010)

Resenha Uma Menina chamada Julieta


 

Título: Uma menina chamada Julieta
Autor: Ziraldo
Ilustrações do autor
Editora: Melhoramentos
  
Uma menina chamada Julieta, como todas as suas antepassadas e, que de tão importante, nas palavras de Ziraldo, é uma alvorada, pois nasceu bem no ano 2000. Sua roupa, dada de presente pela avó, ilustra bem a personalidade da menina, pois é a roupa de uma verdadeira heroína! Garota traquinas, seria sua melhor definição. Ensina os meninos a assoviar, joga bem videogame, futebol e é até a goleira do time!

Uma ótima alternativa para as meninas que já gostavam do menino maluquinho de Ziraldo, mas queriam ver uma menina como personagem principal. Impossível não querer ser amiga ou mesmo viver as aventuras de Julieta!

terça-feira, 30 de julho de 2013

Resenha Outro como eu só daqui a mil anos


 

Título: Outro como eu só daqui a mil anos
Autor: Ziraldo
Ilustrações do autor
Editora: Melhoramentos


Este livro propõe algumas reflexões sobre a passagem do tempo e a relevância que isso tem em nossas histórias e na história do mundo.
Consegue ilustrar com clareza para as crianças o que é calendário Gregoriano, Era Cristã e, ainda, como descobrimos qual século o livro de história está citando (Ex: 1215, século XIII). Registra a importância da virada do século XX para o século XXI e o marco que isso foi para pessoas desta geração. De todos os livros do Ziraldo este foi o que menos me empolgou até o momento, com certeza o tema não me atraiu muito, apesar do livro estar indiscutivelmente bem escrito, como sempre.


segunda-feira, 29 de julho de 2013

Resenha Coelho Mau



Título: Coelho Mau
Autora: Jeanne Willis
Ilustrador: Tony Ross
Editora: Ática


Fofinho Saltos, ou melhor, Coelho Mau, deixou uma carta para os pais, contando que fugira para viver com seus amigos Coelhos Sinistros. Descrevendo como está sua nova vida e o que teve que fazer para conseguir ser aceito neste grupo da pesada, ele deixa seus pais muito assustados. E agora, como os pais vão lidar com isso? O final desse livro promete muitas surpresas. Ideal para ser lido com crianças um pouco mais amadurecidas, se o objetivo for tratar de temas como pressão da turma, bullying, etc. 

domingo, 28 de julho de 2013

Resenha O menino do pijama listrado


 

Título: O menino do pijama listrado
Autor: John Boyne
Editora: Cia das Letras

Sinopse: Bruno tem 09 anos e é filho de um comandante do exército alemão. Vive uma vida tranquila – a mais tranquila possível para um país do eixo durante a Segunda Guerra Mundial – e tem todo o conforto que uma criança precisa para ser feliz. Bruno vê sua paz perturbada quando é obrigado a deixar seu lar em Berlim e vai com sua família para outra casa, ao lado de um campo de concentração, que o pai administra. Quem seriam aquelas pessoas do outro lado da cerca e por que estavam sempre usando pijamas listrados?

Resenha: Este livro é diferente, talvez porque estejamos mais acostumados a ver a história pelos olhos das crianças judias (O Diário de Anne Frank). De início, a primeira impressão que tive sobre o livro é que a forma de narrar de John Boyne lembra aquelas narrativas infantis, não que o tema seja infantil, mas pelo modo como algumas frases são repetidas ao longo do texto. Ex: “Até mesmo aquelas coisas que ele escondera no fundo e que pertenciam somente a ele e não eram da conta de mais ninguém.” Isso não é uma crítica negativa, mas uma impressão, pois adoro uma boa narrativa infantil e acho que esse toque foi primoroso.
Obviamente, eu já sabia que o livro tratava da amizade de dois meninos (um judeu e um alemão) através de uma cerca, durante a Segunda Guerra Mundial, então sabia que de infantil o livro não teria nada. Acontece que eu me enganei, porque além do modo de narrar de Boyne lembrar um sombrio conto infantil, fica muito claro que estamos vendo a história pela perspectiva de um garoto de nove anos, mesmo que a história seja em 3ª pessoa. E por ele ser criança, ninguém deixa nada muito claro sobre o que está acontecendo realmente (Para onde eles vão? Por quê?) e vamos entendendo a história ao longo de “pistas” e acompanhando as suposições que o garoto faz ao longo das descobertas. Nem todas as suposições de Bruno chegam perto da realidade e é frustrante e em alguns momentos engraçado, perceber esses erros de julgamento dele. Achei-o um personagem bem complexo para um personagem infantil, pois ele é ao mesmo tempo muito humano, pela forma como trata os empregados, por exemplo, mas egoísta, quando faz pouco caso dos problemas que Shmuel enfrenta.  Tem a curiosidade natural de uma criança, mesclado à indiferença que sente em relação às coisas que os adultos tanto prezam. Apesar da evidente inocência, eu o achei maduro. Pelo menos até conhecer Shmuel, porque aí então fica nítido quem é a criança madura realmente.
O autor foi tão feliz na forma como apresentou a história, porque fica evidente que as atrocidades acontecem e estão bem próximas, no entanto em nenhum momento uma atrocidade é descrita, apenas sugerida. Afinal, o livro não é apenas mais um relato sobre como os judeus foram flagelados pela crueldade dos nazistas, o livro é sobre a amizade entre um menino alemão e um judeu e como essa amizade foi induzida e afetada por essa crueldade.
O final me surpreendeu, acho que é porque eu esperava o lugar-comum. E isso é tudo o que eu posso dizer sem envolver spoilers na jogada. Vale muito a pena ler esse livro.

Pg. 100

“Polônia”, disse Bruno, pensativo, medindo a palavra na língua. “Não é tão bom quanto a Alemanha, é?” Shmuel franziu o cenho. “Por que não?”, perguntou ele. “Bem porque a Alemanha é o maior de todos os países”, respondeu Bruno, lembrando-se de algo que ouvira o pai comentar com o avô em certo número de ocasiões. “Somos superiores”. Shmuel encarou-o sem dizer nada, e Bruno sentiu um forte desejo de mudar de assunto, pois, enquanto dizia aquelas palavras, havia algo a respeito delas que não soava correto, e a última coisa que queria era que Shmuel pensasse que ele estava sendo mal-educado. 

Resenha Flicts



Título: Flicts
Autor: Ziraldo          
Ilustrações do autor
Editora: Melhoramentos

Este livro nos apresenta uma cor muito rara e que se sente muito desajustada. A cor se chama Flicts. Não se compara a nenhuma outra cor e, por isso mesmo, não encontra seu espaço junto às outras cores, seja na natureza, nas bandeiras dos países ou até mesmo nas caixinhas de lápis de cor!

Essa é uma história sobre a solidão que a diferença nos traz, a esperança de encontrarmos nosso lugar no mundo e a vontade de sermos valorizados pelo que somos. As possibilidades temáticas a serem desenvolvidas com este livro são inúmeras: respeito às diferenças com os maiores; apresentação das cores, com os menores, etc. Lindo livro!

sábado, 27 de julho de 2013

Resenha O Menino Marrom


 

Título: O menino marrom
Autor: Ziraldo          
Ilustrações do autor
Editora: Melhoramentos


Essa é a história de dois meninos e não apenas de um menino marrom, como sugere o título do livro. Eles são amigos e vivem muitas aventuras... Afinal, quer aventura maior do que ser tão pequeno e descobrir milhares de coisas legais todos os dias? Quando comecei a leitura desse livro, achei que, dado o título, ele não poderia fugir da regra daqueles livros infantis que falam sobre as diferenças, preconceito, etc. Que nada! Como sempre, passei as páginas surpreendida e deliciada, como é sempre minha sensação quando leio os livros desse autor. Na verdade, para mim, o livro trata mais da amizade de dois meninos curiosos e espertos e suas descobertas – Descobriram inclusive que marrom, é a união de todas as cores paradas e, branco, a união de todas as cores em movimento. E que não existe ninguém preto e ninguém branco. E, sim, essa história é mais bonita que a de Robinson Crusoé. Quem seguir minha dica e ler o livro vai entender o que eu quis dizer. 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Resenha O Rei Bigodeira e sua banheira


 

Título: O rei Bigodeira e sua banheira
Autora: Audrey Wood
Ilustrador: Don Wood
Editora: Ática

O pobre pajem do rei Bigodeira está em apuros: o rei está na banheira e não quer sair de jeito nenhum! O menino pede a ajuda de vários personagens ilustres da Corte para fazer o rei sair do banho. Tentam convencê-lo desde o cavaleiro, o duque e outros membros da corte até a rainha e, mesmo usando variadas artimanhas, nada surte efeito sobre a extravagância do rei. E agora, como o esperto pajem irá sair dessa enrascada?


“O rei Bigodeira e sua banheira” deve ser lido de preferência de forma interativa, ou seja, com a participação das crianças, pois, a cada grito de socorro do pajem, repete-se a frase “o rei Bigodeira está na banheira e não quer sair! O que vamos fazer?” Além da história ficar mais divertida por isso, agradando aos pequenos, é bacana porque ilustra bem aquela fase em que a criança chora para entrar no banho e quase sempre chora para sair (Ainda não tenho filhos mais estou ligada nessa dificuldade...rs), possibilitando até mesmo um diálogo dos pais com os filhos sobre a questão.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Resenha A Bruxa Salomé


 

Título: A bruxa Salomé
Autora: Audrey Wood
Ilustrador: Don Wood
Editora: Ática

Essa parceria de sucesso já é conhecida, figurando em livros como “A casa sonolenta” e “O rei bigodeira e sua banheira” e, portanto, segue o mesmo padrão de qualidade dos livros citados, tanto no texto quanto nas ilustrações, bem realistas e características.

Os Wood nos contam a história de uma camponesa que possuía sete filhos (Cada filho possui um nome da semana) e, ao deixá-los sozinhos para ir ao mercado, eles acabam sendo enganados pela bruxa Salomé e enfeitiçados, mesmo após as recomendações que a mãe lhes faz. Cabe à mãe dedicada ser mais esperta que a bruxa e salvá-los antes que o pior aconteça. 
Achei esse livro primoroso, pois é mais próximo das raízes da tradição oral, coisa que eu adoro. Longe de trazer as tradicionais lições aos moldes "Disney", o livro mostra mais a realidade da coisa -  por incrível que pareça, logo que estamos falando de uma história de bruxa e feitiço. Quero dizer com isso que os personagens são mais humanos, as crianças são mesmo desobedientes, mesmo amando a mãe e, esta, com seu amor incondicional, está longe de ser a típica boazinha e indefesa que precisa que alguém a ajude. Ela mesma enfrenta a bruxa utilizando como armas sua esperteza, coragem e o próprio amor pelos filhos.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Resenha Eugênio, o gênio


 

Título: Eugênio, o gênio
Autora: Ruth Rocha
Ilustrador: Fábio Sgroi
Editora: Salamandra


Todo mundo conhece uma pessoa como Eugênio, o gênio. E a pessoa que você conhece nem precisa ser necessariamente uma criança, tem muito adulto assim, como esse personagem criado por Ruth Rocha.
Eugênio - como descobrimos logo na primeira página - é o burro mais inteligente do mundo. Fala várias línguas e lê muito livros, mas tem um defeito: tem um “gênio”! Empaca com tudo, desde pequeno. Sempre se recusa a fazer qualquer coisa que seja, e só cede depois que os pais insistem (adulam) muito. Até que surge um grande concurso de perguntas e respostas da rádio jovem florestal. E aí, será que Eugênio vai responder as questões corretamente e se dar bem no concurso ou será que vai empacar?

Para entender o que essa divertida história quer transmitir e para disseminar para quem mais puder, meus caros, nem precisa ser gênio. (Rsrs...Não resisti ao trocadilho!)

terça-feira, 23 de julho de 2013

Resenha Menina Nina



Título: Menina Nina: duas razões para não chorar
Autor: Ziraldo
Ilustrações do autor
Editora: Melhoramentos

Fazia alguns anos desde que eu não me emocionava com um livro a ponto de chorar. Mas, bem, estamos falando do Ziraldo, então vocês vão me entender e perdoar. Obviamente o choro também foi causado por memórias particulares, mas, sobretudo, pela dose de verdade que contém o livro. É impossível não entrar na história da menina Nina e sua avó Vivi, ou melhor, na história da avó Vivi e sua neta Nina. O amor das duas, transmitido ao longo das páginas não por feitos gloriosos, mas pelos pequenos gestos do dia-a-dia na relação avó-neta, é algo tocante. Mais tocante ainda é descobrir as duas razões pelas quais não se deve chorar, mencionadas no subtítulo do livro. Mas isso melhor não contar para não perder a graça.

Ao ler o making of (Ou história da história, como o Ziraldo prefere), no final do livro, fica fácil entender porque há uma carga tão grande de verdade em suas páginas. 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Inquietudes: Relativamente Sobrenatural e...Totalmente verídico!


Quando eu tinha 18 anos saí da minha cidade (Ilha Comprida/SP) e vim para a Capital em busca da realização do meu maior sonho: Me formar e ser uma Bibliotecária! Ah, a independência! Fazer o que quiser, não dar satisfações para ninguém... Tudo lindo, né? Não! Nada lindo, pelo menos não para uma pessoa como eu... Deixe-me explicar: Eu sou a pessoa corajosa mais medrosa do mundo! Uma Indiana Jones para enfrentar as peripécias da vida e uma ratinha quando o assunto são as coisas do além... Tenho medo até do escuro! É feio admitir isso publicamente, mas que atire o primeiro rolo de papel higiênico quem nunca se borrou lembrando algum filme de terror no escuro do seu quarto ou, no mínimo, ficou cabreiro de levantar a noite para ir ao banheiro! Pois bem, a história que vou relatar aconteceu comigo, poucos meses depois de estar morando sozinha aqui em Sampa e é só para quem tem coração forte.

Lá estava eu, sentada no sofá da minha sala, praticando contorcionismo ao tentar fazer minhas unhas dos pés – e só as mulheres que fazem as próprias unhas dos pés sabem o quanto isso é confortável – tendo por companhia a melhor companheira dos seres solitários (a TV), sem assisti-la propriamente, mas apenas ouvindo seu reconfortante som. Tudo corria bem, até que ouvi alguém bater no vidro da minha janela... Foram dois toques bem secos (Tipo, TOC-TOC). Não dava para ver quem era, porque eu já tinha cortinas nessa época da minha vida. Minha cabeça de mulher-solteira-morando sozinha começou a trabalhar a mil: Se fosse um amigo meu chamaria meu nome.  Por outro lado, se fosse um ladrão ou alguém querendo me fazer mal com certeza não seria educado ao bater antes de entrar. Vou ficar bem quietinha e seja quem for vai embora logo. Cacete, tática furada. A TV está alta e a luz ligada!
Então fiz o que qualquer pessoa inteligente (Leia-se paranoica) faria: Peguei meu celular e deixei o número da polícia de bate pronto. Qualquer coisa era só ligar e pedir socorro! Silêncio. Espera, espera. Silêncio. Ah! Ufa... Foi embora. E como se o dito cujo estivesse ouvindo meus pensamentos... Mais dois toques bem secos no vidro da janela: TOC-TOC. Sabe quando alguém está batendo na porta com aquelas senhas secretas dos filmes? Então, parecia isso. O problema é que eu nunca combinei senha secreta com ninguém! Poxa vida, o que eu faço?! O que eu faço?! Coragem, garota, coragem! Você não veio de tão longe para recuar diante de uma batida na janela. Vamos, você pode, cria coragem e olha pelo menos pela fresta da cortina quem está batendo!
Ouvindo minha vozinha interior – que devo dizer estava quase sumindo diante tamanha pressão – fui bem de mansinho (Veja bem, eu não tinha outro jeito de andar, porque tinha bolas de algodão separando os dedos dos meus pés para não manchar o esmalte das unhas). Levantei bem a pontinha da cortina e sabe o que eu vi? Nada. Absolutamente nada! Daí fiquei com mais medo ainda, porque não era bandido nem amigo pregando peça minha gente, era algo ou invisível ou de uma rapidez absurdamente sobrenatural! Meu coração saiu do meu peito e foi correr a Maratona Pão de Açúcar... Larguei o celular, pois – por motivos óbvios - desencanei de chamar a polícia. Fui até a cozinha e peguei a maior faca que eu tinha (Aquelas de serrinha que servia tanto para passar manteiga no pão quanto para cortar cebola) e esperei, tentando tomar umas das decisões mais difíceis da minha vida. Eu podia correr para o vizinho, mas nada garantia que eu seria mais rápida que o ser que estava à espreita lá fora (Com ou sem bolas de algodão nos pés, rapidez nunca foi meu forte) e, além disso, e se não fosse nada? Eu ia ficar com fama de quê na vizinhança? Além do mais, virou questão pessoal, detesto que atrapalhem meus planos, mesmo que tenha sido apenas planos de pintar as unhas! Que história é essa de me assustar dentro da minha própria casa? Eu pago minhas contas, meus impostos! (Sempre quis dizer isso, embora na hora eu tenha só pensado mesmo, estava com medo demais para falar...) TOC-TOC. Mais uma batida marota para me assustar... Ah, é? Então você vai ver do que Cíntia Mendes é capaz! E fui, munida apenas de uma faca de serrinha e o molho de chaves para abrir a porta dos fundos e pegar o meliante/fantasma no flagra! Num movimento só, acendi as luzes da área dos fundos, abri a porta, ergui a faca e ainda fiz aquela pose de A-HÁ-TE-PEGUEI! (Eu fui muito ninja). Qual foi minha surpresa – pra não dizer decepção a essa altura do campeonato – quando o meu agressor apareceu em formato de gato! Isso mesmo, pessoal! Era um G-A-T-O! Bichaninho, miau... E daqueles bem fofinhos, que fazem da noite o seu quintal e brincam com tudo que aparece, inclusive com uma enxada que eu havia deixado encostada do lado de fora, perto da janela, e que ele transformou no seu adversário de MMA... Cada ataque do gato era um movimento de esquiva da enxada que, esperta como só, se amparava no vidro da janela.
Sinceridade viu, eu amo gato, mas naquela hora entendi porque eles eram queimados juntos com as bruxas durante a inquisição... Como deixar de pensar que aquele gato travesso não tinha feito tudo friamente calculado? Do tipo, vou pegar aquela otária hoje... Assusto, assusto até fazê-la borrar a unha. Sacanagem, pô. Mas, uma coisa aprendi com isso tudo: Se você é perturbada como eu, não more sozinha. Divida o apartamento/casa com algum colega, de preferência um bem corajoso, que possa enfrentar seus medos com você munido de algo melhor do que uma faquinha de pão!




Resenha Bruxa, bruxa, venha à minha festa


 

Título: Bruxa, bruxa, venha à minha festa
Autor: Arden Druce
Ilustrador: Pat Ludlow
Editora: Brinque-Book


A Bruxa recebe um convite para uma festa, mas diz que só irá se o Gato puder ir. O Gato também aceita, mas só se o Espantalho for também. E assim vão sendo convidados diversos personagens, como a Coruja, o Pirata, o Fantasma, o Dragão, etc. Todas as ilustrações são grandiosas, tomando todas as páginas e, à primeira vista, um adulto que pegue este livro, ficará preocupado com suas ilustrações fortes e muitas vezes assustadoras. Quem não tem experiência nessa área talvez até chegue a pensar que esse livro não pode fazer sucesso entre as crianças. Ledo engano, meus caros. “Bruxa, bruxa” já é um clássico muito amado por crianças de todas as idades, principalmente aquelas que você talvez pensasse que sentiriam mais medo. Essa é uma história totalmente interativa, que geralmente conta com a participação fervorosa das crianças, mesmo as que não sabem ler. E o contador de história/Mediador/Pai/Etc. nem precisa ter muita habilidade nessa arte, pois o livro faz-se por si só. Maravilhoso. 

domingo, 21 de julho de 2013

Resenha Um capricho dos deuses



Título: Um capricho dos deuses
Autor: Sidney Sheldon
Editora: Record

Sinopse: Mary Ashley é uma professora universitária especializada em assuntos da Europa Oriental e muito admirada por seus alunos. Um marido apaixonado e um casal de filhos inteligentes completam o perfil da americana feliz e comum. Isso muda drasticamente quando seus artigos acadêmicos chamam a atenção do recém-eleito presidente dos Estados Unidos e, logo após, seu marido morre em um estranho acidente de carro. Ela é então designada embaixadora dos Estados Unidos na Romênia e se vê envolvida por uma extensa rede de intrigas, protocolos sociais e espionagem. Sem saber em quem confiar se vê ao mesmo tempo atraída e intrigada por dois homens: Mike Slade, seu subchefe, e Louis Desforges, médico da embaixada francesa. O problema é que possivelmente um deles esteja empenhado em tentar matá-la.

Resenha: Por já conhecer o estilo do autor (Um estranho no espelho), já esperava por personagens abundantes e bem construídos, além de uma história cheia de reviravoltas. Este é um livro sobre intrigas políticas e isso fica bem evidente principalmente nas 40 primeiras páginas, recheadas de descrições e apresentações de personagens. Por este motivo, me senti um pouco desencorajada a prosseguir com a leitura. Quase desisti, mas como é de Sidney Sheldon que estamos falando, resolvi dar um crédito para o autor e não me arrependi. Depois que o pano de fundo é explorado, a ação entra em cena e o texto fica mais fluido. Vamos aprendendo junto com Mary as regras de conduta esperadas de uma embaixadora e – mais importante – em quem confiar. Esse último quesito, aliás, nunca é plenamente respondido ao longo do livro e, mesmo nas últimas 05 páginas, ainda ficamos na dúvida. É muito bacana perceber o amadurecimento da personagem ao longo das páginas, pois, apesar de sua inteligência ficar evidente, ela era um tanto quanto inocente no início e logo vai se transformando numa mulher cheia de ardis para conseguir seus objetivos. Às vezes quando eu achava que ela estava perdendo o jogo, ela vinha com uma solução mirabolante. Longe de ser a donzela em apuros, se mostra forte e corajosa, o que me fez torcer muito por ela. 
Talvez o ponto negativo – que nem pode ser chamado de negativo, pois é uma característica do autor – seja a descrição dos personagens e a quantidade deles. Meu Deus! São tantos personagens secundários, dos quais Sheldon descreve brevemente o histórico, fisionomia e personalidade, que eu fico perdidinha! Mas isso é um problema que eu tenho particularmente, decorar nomes e tal, por isso uso a técnica de “Fichamento de personagens” para este tipo de livro, daí fica mais fácil.
Achei primorosa a descrição que Sheldon faz do luto de Mary. A transição dos sentimentos, passando pela vontade de morrer, raiva de Deus, raiva do mundo, superioridade pela sabedoria que o sofrimento traz, a solidão, a necessidade de seguir em frente, o conformismo... Enfim, transcreve com exatidão essa fase da vida pela qual todo ser humano passa. 
Quando a história chega ao seu clímax, já é impossível parar de ler, pois em cada página há uma reviravolta. Embora o tema de Um estranho no Espelho tenha me cativado mais, ainda assim recomendo Um capricho dos deuses.

Pg. 133
- Ele está em paz – diziam a Mary.
E uma centena de outros clichês. As palavras fáceis de consolo, só que não havia nenhum consolo. Não agora. Nem nunca.

Ela acordava no meio da noite e corria para os quartos dos filhos, a fim de se certificar de que eles estavam seguros. Meus filhos vão morrer, pensou Mary. Todos vamos morrer. Pessoas andavam calmamente pelas ruas. Idiotas, rindo e felizes – e todos vão morrer. Suas horas estavam contadas, e as desperdiçavam em estúpidos jogos de cartas, assistindo a filmes tolos e a partidas de futebol americano sem o menor sentido. Acordem!, ela tinha vontade de gritar. A terra é o matadouro de Deus, e somos o Seu gado. Será que não sabem o que vai lhes acontecer e com todas as pessoas a quem ama?

Resenha O Grande Rabanete



Título: O grande rabanete
Autora: Tatiana Belinky
Ilustrador: Claudius
Editora: Moderna

Vovô planta um rabanete na horta e, na hora de colhê-lo, percebe que ele está tão grande que precisará de ajuda para conseguir arrancá-lo. Entra na história para dar apoio ao feito a Vovó, a neta, o Totó, o gato e até o rato! Adivinhem quem de fato conseguiu arrancar o rabanete e, aliás, será que de fato foi uma pessoa só que conseguiu arrancá-lo?
É bacana fazer esse questionamento com as crianças, instigá-las a perceber o quanto foi importante a ajuda de cada um dos personagens e o quanto a colaboração e a união de forças é importante no nosso dia-a-dia.
Além disso, há na história frases de repetição, que são um convite para a interação das crianças, mesmo as que não sabem ler.
"O grande rabanete" é um conto da tradição oral russa, resgatado aqui nessa versão por Tatiana Belinky que, creio eu,  dispensa apresentações. 


Resenha O Sanduíche de Maricota



Título: O sanduíche de Maricota
Autor: Avelino Guedes
Ilustrações do autor
Editora: Moderna

A galinha Maricota está preparando um sanduíche com seus ingredientes favoritos, até que a campainha toca e aparece o bode Serafim, dando palpite sobre como deixar o lanche “mais gostoso”. O mesmo acontece com o gato Kim, o cão João, a abelha Isabel, o macaco, o rato Aleixo e a raposa Celinha. E cada um que chega vai dando suas ideias e deixando o sanduíche de Maricota mais e mais estranho até que, finalmente, Maricota se cansa e coloca todos para fora, preparando seu lanche novamente, com os ingredientes iniciais, seus preferidos.
Podem ser trabalhados temas como o respeito à individualidade e ao gosto de cada um. Engraçado é saber como o autor teve a ideia para este livro, passando justamente por uma situação assim, onde recebeu tantos palpites para melhorar seus desenhos que acabou não gostando do resultado final! Fica a dica, palpiteiros de plantão! 

Resenha Os aventureiros



Título: Os aventureiros
Autor: Helme Heine
Ilustrações do autor
Editora: Ática

Os aventureiros do título são: o galo Juvenal, o porco Waldemar e o rato Frederico. Os três são amigos que vivem em Brejo Verde, fazenda como tantas outras, onde as galinhas botam ovos e os porcos fazem regime de engorda, aliás, as páginas que ilustram essas duas situações quase me mataram de rir, são ótimas!
Entediados com a vida repetitiva na fazenda, os amigos decidem sair em busca de aventuras. E conseguem. Passam por poucas e boas, já no início, nos arredores de Brejo Verde. Perseguem um tesouro, navegam por águas repletas de piratas, fogem de um “canibal” (um homem vestido de cozinheiro) e até vão parar no deserto. Ajudados pelo amigo elefante Jumbo, voltam para casa a tempo do jantar e ainda contam suas aventuras para os amigos de Brejo Verde. 
Na história desse livro não acontecem coisas mirabolantes, aliás, boa parte das situações vividas pelos personagens você já deve ter visto em outros livros infantis, no entanto, são as ilustrações que garantem ao livro nuances de ironia e um "quê" de revolta quanto ao tratamento que os homens dispensam aos animais. Se olharmos nas entrelinhas, poderemos perceber que com muito bom humor os autor faz uma crítica a essas relações. Mas não se preocupem, mesmo quem não focar sua visão de Superman para o livro, poderá dar boas gargalhadas!

Resenha Antes da Chuva

Título: Antes da chuva
Autora: Lúcia Hiratsuka
Ilustrações da autora
Editora: Global

Ao receberem o misterioso convite para uma festa que aconteceria naquele mesmo dia, antes da chuva, os irmãos Lia e Nico apressam-se para comparecer ao evento. Mas que festa seria aquela e onde seria? As nuvens já estão se formando, mas com a ajuda da vaca Dona Margarida e da cadelinha Mamona, conseguem desvendar o enigma.
O mais marcante desse livro é nos lembrarmos de uma época em que tudo era absolutamente mágico, desde as nuvens se formando no céu até o canto dos sapos. Lendo esse livro, lembrei da minha infância, nos dias em que estava chovendo e eu não podia sair para brincar (nem sempre minha mãe me deixava tomar banho de chuva...rs...saco!), ficava olhando o trabalho de limpeza da natureza e me perguntando aonde os bichinhos estariam escondidos!
Essa história é assim, contada com muita delicadeza, tal como são os traços de Lúcia Hiratsuka, que mexem com a nossa memória afetiva. 


Resenha Hora do abraço

 Título: Hora do abraço
Autor: Patrick McDonnell
Ilustrações do autor
Editora: Girafinha

Patrick McDonnell, desenhista que se consagrou com a tirinha Mutts e que vem sendo comparado a Charles Schulz (Criador do Snoopy) é o autor e ilustrador desse belo livro, onde nos é apresentada a história de Jules, um gatinho muito afetuoso que sonha em abraçar o mundo todo.
Logo na segunda página, é a coisa mais tocante - pra não dizer realmente fofo - vê-lo sendo desacreditado de sua missão e mesmo assim vestido e arrumado por Doozy. 
Ao longo das páginas, conforme Jules vai seguindo a lista de todos que deveriam ser abraçados, fica muito clara a intenção do autor em não ater-se apenas aos elementos mais básicos da fauna e flora. E depois de tantos abraços distribuídos ao longo do mundo, chegando a um lugar frio e vazio, Jules é surpreendido.
Este livro tem propostas bacanas de serem trabalhadas com as crianças nos dias atuais, como a importância das demonstrações de carinho e em como isso pode transformar o mundo no qual vivemos. Ao final do livro, inclusive, seria interessante aceitar o convite do autor. Hora do abraço, galerinha!