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quarta-feira, 31 de julho de 2013

Inquietudes: Chaleira de Porcelana


 



































                                                                                                     

                        Chaleira de porcelana

Repetidas vezes na vida recebi lições sobre materialismo, lições essas que aprendi de forma cruel e praticamente cíclica. Incêndio, furto, mudança extraviada, umidade e toda a sorte de eventos se repetiam, sumindo com bens materiais parcial ou completamente, inclusive coisas cujo único valor era o emocional.  Nessas horas eu olhava para o céu e enxergava um quadro negro, onde parecia estar escrito a giz divino “Retenhas e perderás” – assim mesmo, com voz magistral e profética. 
Minha mãe não era uma pessoa que alguém pudesse considerar materialista, o que vejo na realidade é que ela era uma pessoa humilde e, deste modo, dava muito valor a tudo o que conquistava, mesmo que fosse um pano de prato novo. O problema, na verdade, é que ela dava tanto valor às coisas, que preferia não usá-las ou, usava somente em “momentos especiais”, como dizia ela. E não importava minha ladainha semanal de que todo momento na vida era único e, portanto, especial. Havia coisas que ela possuía há anos, sem nunca ter usado. Algumas ela havia usado somente uma vez, depois do meu melhor sermão da montanha, e mesmo assim havia embalado novamente.
Certo dia, meus pais resolveram visitar meus avós em outro estado e pretendiam demorar por lá. Minha mãe guardou tudo o que mais lhe importava num quartinho especial, que trancou a sete chaves, e ainda colocou um guarda-roupa na frente da porta. Segundo meus pais, caso alguém invadisse a casa naquele período de viagem, os bens “mais preciosos” estariam seguros (coisas realmente de valor foram para casa de vizinhos).
Acontece que como todos bem sabem, não mandamos no nosso destino, e durante essa viagem e nos meses que se sucederam a ela, meus pais faleceram. Eles nunca voltaram a morar naquela casa, e quando voltei lá, sozinha, para reabrir a casa dos meus pais, encontrei o quartinho. Tudo estava absolutamente destruído pela umidade do local: Panos de prato, toalhas de mesa e de banho, panelas... Tudo estava embolorado, enferrujado ou corroído pelas traças. Essas coisas acontecem, quem mora no litoral sabe, embora eu nunca tenha visto acontecer num espaço de tempo tão curto.
Naquele momento, chorei muito, talvez até mais do que no enterro dos meus pais, mas não pelos objetos perdidos, eram apenas objetos. Chorei pela representatividade daquela cena. Quando morremos, não somos o que deixamos para trás, não somos o que deixamos para as pessoas, somos aquilo que deixamos nas pessoas, porque passamos a existir em suas memórias. Eu estava definitivamente deprimida, mas no fundo daquela depressão, consegui encontrar algo bom – todos os momentos bons que passamos naquela casa. Assim como consegui encontrar algo bom no fundo daquele quartinho: Lá, embaixo de toda aquela sujeira e umidade, encontrei uma chaleira de porcelana, a chaleira que eu conhecia desde a minha infância, a qual era usada em “ocasiões especiais”, mas também para tornar especiais mesmo as ocasiões mais simples, principalmente nas tardes de inverno. E ali, naquele momento, eu prometi para mim mesma usar tudo o que eu pudesse e o quanto eu pudesse, usar a vida!
Esperar o momento crucial, que talvez já tenha passado ou nunca chegue. Fazer dos seus dias rascunhos do que poderia ser mesmo sabendo que não vamos poder passar a limpo a vida. Quantos de nós ainda fazemos isso?

E você, onde está guardando o que considera mais precioso? Trancado num quartinho úmido a sete chaves? Ou o que é precioso para você está à vista de todos, ao alcance das mãos mesmo na correria cotidiana e - ao mesmo tempo - bem mais protegido do que se estivesse num cofre de banco?


Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos
Na mesma direção
Aonde está você agora
Além de aqui dentro de mim

(Legião Urbana - Vento no Litoral)





                                                         Em memória de Sueli Mendes Lopes
                                                        (09 de agosto de 2010)

6 comentários:

Evy disse...

Neste exato momento, estou aqui chorando igual criança... (Grande novidade).
LINDÍSSIMO POST!!!

Grande beijo

Cíntia Mendes disse...

Ai, Evy... só você mesmo...rs. Obrigada!

Simone disse...

Cintia, que triste, e lindo ao mesmo tempo, obrigada por compartilhar.

Cíntia Mendes disse...

Oi, Simone! Que bom que gostou...o objetivo era esse mesmo: compartilhar essa história com o máximo de pessoas possível, e, quem sabe, trazer um pouquinho de luz para o que realmente importa! Bjo

ana flavia disse...

Cici Sampaio, como consegue descrever tão bem, suas palavras me remeteram as visitas, sei que nem foram tantas, dona Sueli super preocupada em receber bem seus amigos e aqueles inesquecíveis biscoitos amanteigados da mãe da Cíntia e que capricho, fui sempre tão bem recebida ainda tirávamos um sarro, lembra? A família tipicamente perfeita com pingüins em cima da geladeira e o cesto de ovos em formato de galinha em cima da mesa...rsrsrs tenho certeza que eles se orgulham de vc , todo o jeito humilde do qual descreve eles com tanto amor que te criaram te transformaram neste ser maravilhoso e único com esta sensibilidade e sensatez.

Cíntia Mendes disse...

Sim, me lembro bem... com certeza a minha era a "típica família feliz". Deus me proporcionou os melhores pais que eu poderia ter e nem todo o tempo do mundo seria o suficiente para desfrutar de uma família assim! Obrigada por acompanhar o blog!

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