domingo, 25 de agosto de 2013

Resenha O mundo fora dos eixos

Título: O mundo fora dos eixos
Autor: Bernardo Carvalho
Editora: Publifolha

Este livro é indicado para:
-Quem gosta de um bom tapa literário com luva de pelica;
-Quem não tem preguiça de pensar;
-Quem gosta de um bom jogo de palavras.

A todos aqueles que escrevem resenhas, sejam de livros, filmes ou exposições, é interessante tomar nota do livro de Bernardo Carvalho. Embora não seja um manual sobre a arte do texto crítico, faz melhor do que um, pois o autor realmente entende do tema e surpreende.
O livro reúne o trabalho publicado em uma década (1995-2005) por Bernardo Carvalho, no Jornal Folha de São Paulo, e é dividido em três partes: Crônicas, resenhas e ficções, mas nenhum desses gêneros está completamente delimitado no estilo do autor, pois como ele próprio reflete no início do livro, tanto as resenhas quanto as crônicas utilizam o objeto artístico (livro, filme, peça, exposição) como pretexto para reflexão sobre coisas que despertam o seu interesse, sendo que ambas são recheadas de ficções.
Alguns de seus textos têm nuances tão discretas de sarcasmo que ainda estou na dúvida se os compreendi totalmente! Não é uma leitura para ser feita com pressa, passando apenas os olhos, o ideal é que cada crônica/resenha/ficção seja lido e absorvido devagar, para uma maior reflexão. Embora a maior parte de seus textos não possa ser considerada fácil de ser digerida, valeu todo o tempo investido, principalmente porque quando cheguei quase ao final do livro (Pg. 206), tive a grata surpresa de vê-lo escrever sobre meu poeta favorito: Álvares de Azevedo.
Indicado para pessoas com certo nível cultural (pois é recheado de referências não tão conhecidas que podem te deixar perdido). Pretendo guardá-lo na mesa de cabeceira para uma releitura mais aprofundada e análises posteriores.

Pg. 123 - Em "Lobo! Lobo!"

Há alguns anos, num encontro de escritores de países periféricos, nos Estados Unidos, citei uma aula de Nabokov: "A literatura não nasceu no dia em que um menino gritando 'lobo!, lobo!' veio correndo do vale de Neandertal com um grande lobo cinzento no seu encalço: a literatura nasceu no dia em que um menino veio gritando 'lobo!, lobo!' e não havia lobo nenhum atrás dele. [...] Literatura é invenção. Ficção é ficção. Chamar uma história de história verídica é um insulto tanto a arte quanto a verdade".

Pg. 174 e 175 - Em “A linguagem dos patos”

Toda arte que se preza é uma maneira de transformar em qualidade o que antes podia ser visto ou sentido como defeito. Não é uma forma de negar, dourar ou encobrir o “defeito”, mas de afirmá-lo sob um novo ponto de vista que, surpreendentemente, ao valorizar essa “falha”, funciona como redenção, e não só para o autor. É assim que o terror, a doença, a morte, o vício e a fraqueza, mas também a raiva, o rancor, a inveja etc., são transubstanciados numa forma que os sublima, e não só no sentido freudiano.
(...)
O escritor encontra seu caminho no dia em que decide radicalizá-lo em vez de negá-lo. E isso, para o bem ou para o mal, não significa buscar a cura, mas mergulhar na “doença” que lhe permite ver o mundo com seus próprios olhos, de um ponto de vista que só pode ser seu. Significa tirar a força da sua fragilidade, reforçar o que lhe é específico, fazer do seu “defeito” um estilo.

Pg. 194 – Em “Para que serve a literatura?”


Qual o resenhista que nunca se sentiu ridículo ao falar de literatura numa mídia direcionada para um público cada vez maior e mais indiferenciado, mais interessado na vida dos autores do que nas obras? Quem quer saber de literatura num mundo impaciente onde, graças a uma massificação avassaladora da cultura, tudo tem que ter um atrativo publicitário, uma função (um lugar no mercado, por exemplo, um resultado financeiro), uma explicação ou uma utilidade?

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