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domingo, 9 de fevereiro de 2014

Resenha Crianças na escuridão

Título: Crianças na escuridão
Autor: Júlio Emílio Braz
Editora: Moderna

Este livro é indicado para quem:
- Consegue ler histórias tristes;
- Quer uma boa dose de realidade;
- Gostou de ler Capitães da Areia.

Resumo:

Neste livro premiadíssimo (principalmente no exterior), Júlio Emílio Braz nos conta a história de oito crianças abandonadas que vivem – ou tentam viver – na Praça da Sé. Ao longo das páginas passamos a vivenciar e temer o seu dia-a-dia cruel e, sem a maquiagem das fantasias, a triste realidade desponta e nos faz desejar ser tudo apenas um sonho. 

Resenha:

Para quem não conhece, este livro pode parecer apenas mais um infanto-juvenil que tenta conscientizar as crianças e os jovens sobre as mazelas sociais de nosso país. 
Para quem se importa com esse tipo de coisa, pode se destacar o fato de que este livro recebeu vários prêmios internacionais. 
Para mim, este é um livro que me emocionou e me fez refletir. E isso é muito mais do que a maioria dos livros consegue fazer, infanto-juvenil ou não. 
Como o próprio Júlio diz "Se apenas um coração jovem se indignar diante de tanto sofrimento e desesperança, terá valido a pena escrevê-lo". 
A história é narrada sob a perspectiva de uma garota de 6 anos, cuja a qual conhecemos apenas pelo apelido dado pelas outras meninas: Rolinha. 
O livro não é muito longo, apenas 75 páginas, mas está dividido em 4 partes: uma para cada ano que Rolinha descreve mais o epílogo. 
A história começa sem preâmbulos e ficamos tão perdidos quanto Rolinha, abandonada pela mãe em frente a um supermercado. 
Não existe descrições muito detalhadas, o que é importante é dito sem rodeios. Mas talvez o que seja importante para um adulto não seja tão importante para uma narradora de 6 anos. Isso porém, não impacta de forma negativa na obra, pelo contrário, faz com que seja mais crível que estejamos vendo tudo pelos olhos de uma criança. Sinceramente, eu podia ouvir até mesmo a voz da Rolinha narrando. 
Doca é a segunda personagem a entrar em cena e, embora ela seja a "salvadora" da narrativa, não há nenhuma descrição perfeccionista de suas qualidades, logo de cara nos deparamos com suas falhas:

"Vivemos em torno de Doca. Ela faz e nós fazemos. Ela diz e ninguém tem coragem de ir contra ela. Ela conhece mais. Sofre há mais tempo. Além disso, é a mais forte e tem a mão pesada. Eu senti isso duas ou três vezes." Pg. 10

Depois nos deparamos com as outras meninas que fazem parte do grupo: Batata, Pidona, Santinha, Maria Preta, Maria Branca e Pereba. Cada uma com idades e características variadas, embora todas parecidas, com o sofrimento estampado no rosto e histórias de dramas familiares as unindo. Todas vivem em torno de Doca e dormem juntas num barraco embaixo de uma ponte, que depois, descobrimos ser na região da Sé. 
Embora Doca não seja a maior, por seu perfil de liderança é a mais respeitada e tida como a mãe das demais. 

"Se ela deixasse, eu a chamava de mãe." Pg. 12

Apesar do grupo ser formado apenas por meninas, há muitos personagens masculinos na narrativa:
Pegador, que às vezes atua como protetor do grupo, embora aja apenas por seus próprios interesses (sua afeição por Doca por exemplo); Cai-Zé, um dos cafetões da região; Morungaba, o truculento guarda da praça; Bombinha, o vendedor de drogas; Bacharel, o mendigo alcoólatra. 
Quase todos os personagens masculinos retratados são essencialmente maus e com isso quero dizer que causam medo as meninas ou mesmo que as maltratam. Não que isso seja uma generalização do autor - até porque ele é homem! - mas uma impressão que Rolinha tem do mundo, que fica claro nesta passagem:

"A sombra de Doca é feita de muita paz. Nela estou segura, nela nem o mal nem os homens - o que às vezes dá no mesmo - me alcançam". Pg. 12

E é nesse ambiente de violência policial, prostituição, drogas, fome, exclusão social e abandono que Rolinha tenta manter acesa a sua esperança de um dia reencontrar os pais, ganhar um presente de natal, ter um vestido bonito ou mesmo um lugar sereno e seguro para dormir. 
O autor não é piegas e nem insiste em tentar manter acesa essa esperança, como se Rolinha fosse uma Poliana paulistana. Júlio mostra exatamente a transformação psicológica da personagem que cada vez se parece mais com as outras meninas que moram nas ruas há mais tempo e, com isso, me fez pensar em quantos meninos e meninas que moram nas ruas e tem que amadurecer depressa demais, que ficam endurecidos pela vida de forma irremediável e cujos olhares retratam o Brasil que insistimos em não enxergar. 

Abaixo, um dos trechos que mais ficaram gravados na minha memória:

"O guarda me chutou. Assim, sem mais nem menos, apenas pelo prazer de chutar. Chutou e foi embora como se eu não fosse nada ou fosse algo que devesse mesmo ser chutado. Doca achou que eu era boba de chorar. Aquilo não era novidade para ela e as outras. Todas tem marcas de chute pelo corpo." Pg. 20

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