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domingo, 25 de maio de 2014

Resenha: As cartas de Ronroroso: minha bruxa que não quer ser bruxa

Título: As cartas de Ronroroso: minha bruxa que não quer ser bruxa
Autora: Hiawyn Oran
Ilustradora: Sarah Warburton
Editora: Salamandra

Livro indicado para quem:
- Gosta de livros infantis
- Gosta de livros com bugigangas como cartas, contratos e outros apetrechos anexados
- Gosta de livros com ilustrações detalhadas

Resumo:

Ronroroso é o mais novo gato de Hilda Bruxilda, uma bruxa de alta estirpe. Seria o emprego dos sonhos para um gato guardião, se não houvesse um pequeno problema: Hilda Bruxilda não quer ser bruxa! E agora?! O jeito é Ronroroso escrever cartas pedindo socorro para seu tio McAbro, um gato aposentado e muito sábio, que lhe indicará os feitiços corretos para resolver essa inusitada situação!

Resenha:

Numa palavra? Fofo! Mesmo que algumas páginas sejam um pouco nojentas, pois, por exemplo, em alguns lugares encontramos ilustrações que simulam moscas espremidas entre as folhas. Mas ainda sim é meigo, pedindo para o leitor não contar para Hilda Bruxilda. A história é toda contada por meio de cartas trocadas entre o gato Ronroroso e seu tio aposentado, que atua como conselheiro nas diversas situações que Ronroroso enfrenta em seu novo emprego. Ele é um gato de uma bruxa - Hilda Bruxilda - que não quer ser bruxa, só pensa em fazer compras, assistir televisão e fazer amizade com não-bruxos e, como guardião dela, Ronroroso deve colocá-la no "caminho certo". 
Além das cartas, o livro possui ainda alguns feitiços e até um contrato de trabalho, todos encaixados no projeto gráfico como "abas para abrir". Em comparação com outros livros que eu li do gênero, neste não é possível perder as cartas/itens pois eles não estão totalmente soltos no livro. 
Como bibliotecária, me senti especialmente feliz quando Hilda Bruxilda vai até uma biblioteca e se disfarça de planta para ouvir as histórias de princesas.
No final do livro, na ficha catalográfica, há um aviso para o bibliotecário: "cuidado com vaso de plantas com botas e nariz compridos!" e muitos outros recadinhos divertidos que "Ronroroso" deixa de alerta aos leitores. 
O desfecho é inusitado, não acaba de forma óbvia...rs...Muito booooommmmm! 


domingo, 18 de maio de 2014

Resenha A república dos Argonautas

Título: A república dos Argonautas
Autor: Anna Flora
Editora: Cia das Letras

Este livro é indicado para quem:
- Gosta de mitologia grega;
- Quer saber um pouco mais sobre a época da ditadura;
- Quer conhecer um pouco da história do bairro da Vila Madalena (São Paulo).

Resumo:

Estamos no ano de 1979, no bairro da Vila Madalena, São Paulo. Os militares estão no poder e embora já seja possível vislumbrar um fim para a ditadura no Brasil, ainda há restrições o suficiente para incomodar a vida da menina de 14 anos, por meio da qual enxergamos o quanto aquela época era difícil. Viver no Brasil em 1979 era como encarar a difícil missão dos Argonautas em busca do velocino de ouro. 

Resenha:

A República dos Argonautas retrata uma triste fase da história do nosso país: a época da ditadura. Este tema duro e amargo é abordado por Anna Flora de uma forma sensível e delicada, uma vez que temos um vislumbre a partir da visão de uma garota de 14 anos, moradora do bairro paulistano da Vila Madalena, que, na época, não tinha nada de badalado e moderno, como é hoje. Lembrava mais uma cidade do interior: onde todos se conhecem e se ajudam.
É em meio a casinhas portuguesas, costureiras viúvas e senhores aposentados jogando dominó que percebemos o quanto a ditadura influenciou a vida das pessoas, mesmo as mais comuns, "não politizadas". E quando se instalou na Vila Madalena uma república de estudantes - "A República dos Argonautas" -, a vida desses pacatos moradores nunca mais foi a mesma. Os meninos, vistos com desconfiança no começo, eram artistas, pensadores liberais e "politizados" e, ao seu modo, lutavam contra a ditadura. Faziam passeata, abaixo-assinado, jornais nanicos, mutirão, arrecadação de alimentos, música, poesia (Que na época também eram considerados atos subversivos). Aos olhos da menina de 14 anos, eles eram verdadeiros heróis, tal qual os argonautas da lenda grega, a qual a autora recorre em todos os capítulos, fazendo um paralelo.
No começo do livro, a separação entre o que é a lenda dos argonautas e o que é a história da ditadura é bastante marcada, mas depois, a linha divisória vai ficando bastante tênue.
Embora eu goste muito de mitologia grega, achei um pouco chato quando o livro permeava por esses caminhos gregos. Não sei se é porque a busca pelo velocino de ouro nunca foi um dos meus mitos favoritos, ou porque realmente não casou com o que eu esperava do livro. Enquanto eu lia sobre os estudantes argonautas da Vila Madalena, ficava curiosa para ver onde ia dar, querendo ler mais... Mas quando voltava para os argonautas gregos, eu já pensava "Afe, ah, não!". Mesmo que as passagens mitológicas tenham sido sempre retratadas com certo ar de humor.
O livro recorre a muitas notícias e depoimentos reais da época, sem ser maçante nesse aspecto e, embora sirva apenas como complemento para o que foi a época da ditadura em nosso país, serve como ótima introdução ao tema, principalmente para adolescentes a partir dos 11 anos, eu diria.

Pg. 48

Pois bem. As musas eram o contrário disso. Entre esses dois extremos, elas me acenavam com a "terceira margem do rio": ser boa de briga sem ser briguenta, ter inspiração própria sem deixar de ser musa.

Pg. 101

(Medeia) se achava muito segura, pois dominava o sentido oculto das coisas. No entanto, desde aquele dia em que viu Jasão entrar no palácio, passou a sentir o coração quente, a cabeça fria e começou a desconfiar que existia mais coisa entre o céu e a terra do que supunha sua vã feitiçaria.

Pg. 155

(...) eu estava lendo uma entrevista com um argonauta tcheco que tinha ficado muitos anos na cadeia. No país dele existia também uma ditadura que acabou caindo. Na entrevista, ele dizia que a esperança não era a gente investir em alguma coisa por causa do sucesso garantido que ela teria: esperança era acreditar que aquela coisa fazia sentido, sem pensar no resultado.


domingo, 11 de maio de 2014

Resenha Holocausto Brasileiro

Título:  Holocausto brasileiro
Autora: Daniela Arbex
Editora: Geração Editorial

Livro indicado para quem:

- Gosta de livro-reportagem
- Tem algum interesse em hospitais psiquiátricos
- Tem estômago forte

Resumo:

Como explicar um hospital psiquiátrico no qual 70% dos internos não possuíam diagnóstico de doença mental? Como explicar porque o Estado não só permitia, como colaborava com o envio de homossexuais, prostitutas, alcoólatras, adolescentes engravidadas pelos patrões, esposas enviadas pelos maridos para que estes pudessem viver com as amantes? Daniela Arbex consegue explicar como essa máquina da conivência e submissão funcionava. Como o Estado se beneficiava disso. Como a sociedade ignorava o que era feito na cara de todos e como os funcionários e as famílias eram silenciados. Um relato investigativo chocante, que compara-se, sem exagero, ao horror vivido pelos judeus nos campos de concentração nazistas.  

Resenha:

Holocausto Brasileiro? Como assim? À primeira vista pode parecer uma força de expressão. Na certa um título empregado para aumentar a vendagem de livros num apelo à curiosidade mórbida de alguns leitores. Mas, não. Foi Holocausto mesmo, e vergonhosa e totalmente brasileiro. 
Me deparei com essa história assistindo a participação de Daniela Arbex no programa "Provocações", da TV Cultura. O que me chamou a atenção não foi exatamente a história absurda, revoltante, mas sim o fato de eu nunca ter ouvido falar dela. De ninguém nunca ter ouvido falar dela. Como podia um fato assim ser de conhecimento de tão poucos? Fiquei chocada. 
O livro mostra todas as facetas do maior hospital psiquiátrico do Brasil: O Hospital Colônia, em Barbacena, Minas Gerais. Nos dias de hoje, parte do Hospital foi transformado em museu, o "Museu da Loucura", que tenta dar um vislumbre de como eram tratados os pacientes do hospital. 
Em regime de internato, passavam por muito mais do que tratamentos de choque e medicações fortes e padronizadas - coisas que infelizmente já ouvimos muito por aí. Daniela Arbex descreve com horror a solidão de pacientes que jamais recebiam visitas; que não tinham o que beber, motivo pelo qual muitos tomavam a água insalubre de um esgoto que passava pelo local; que passavam fome, e comiam ratos e outros animais, muitas vezes vivos. 
Eram homens, mulheres e crianças que viviam juntos e nus, por não terem o que vestir ou onde ficar. Sem direito a qualquer tratamento médico - além dos eletrochoques - alguns chegavam a arrancar os próprios dentes devido a dor. 
As grávidas, que muitas vezes estavam nesta condições devido a abusos de outros pacientes, funcionários ou mesmo de homens poderosos, que as enviaram para o Colônia para livrarem-se do incômodo. Apesar disso, muitas passavam fezes na barriga, numa tentativa desesperada de salvarem seus bebês do aborto, mas que meses depois tinham seus filhos retirados de seus braços. 
Esse "tratamento" já seria doentio e cruel o bastante, sendo empregado a doentes mentais. Mas e saber que cerca de 70% dos internos não eram diagnosticados como doentes mentais? Eram pessoas NORMAIS. Pessoas enviadas para lá porque eram tristes ou tímidas demais. Militantes políticos ou epiléticos. Ou, melhor dizendo, pessoas vítimas da loucura de homens sãos que, numa tentativa torpe e cruel de extirpar os "indesejáveis" da sociedade, enviavam para Barbacena, no chamado "trem de doido", todos àqueles que incomodassem minimamente alguém poderoso. 
Enfim, histórias absurdas que, infelizmente, não são apenas histórias, mas pedaços de vidas destruídas para sempre pela omissão de uma sociedade entorpecida. Não durante dias e meses, mas por décadas. 

Pg 15
É preciso perceber que nenhuma violação dos direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto tempo sem a nossa omissão, menos ainda uma bárbara como esta. Em 1979, o psiquiatra italiano Franco Basaglia, pioneiro da luta pelo fim dos manicômios, esteve no Brasil e conheceu o Colônia. Em seguida, chamou uma coletiva de imprensa, na qual afirmou: "Estive hoje num campo de concentração nazista. Em lugar nenhum do mundo , presenciei uma tragédia como esta".

Pg. 27
Os deserdados sociais chegavam a Barbacena de vários cantos do Brasil. Eles abarrotavam os vagões de carga de maneira idêntica aos judeus levados, durante a Segunda Guerra Mundial, para os campos de concentração nazistas de Auschwitz. A expressão "trem de doido" surgiu ali. Criada pelo escritor Guimarães Rosa, ela foi incorporada ao vocabulário dos mineiros para definir algo positivo, mas, à época, marcava o início de uma viagem sem volta ao inferno. 

Pg. 204
A tolerância mórbida dos psiquiatras se estendeu ao meio médico, em cujas faculdades os cursos de anatomia são abastecidos por generosa quota de cadáveres provenientes de Barbacena. Os hospitais de crônicos da rede pública são "instituições finais", numa alusão à "solução final" do nazismo. A realidade brutal de nossos hospitais psiquiátricos, enquanto permanecer restrita aos meios profissionais, mostra-se inteiramente inócua, pois há uma acomodação, na qual todo aquele horror se torna banal. 

Indicação de vídeo: 
Documentário Em nome da razão: um filme sobre os porões da loucura, de 1979, do cineasta Helvécio Ratton. Filmado dentro do Hospital Colônia. 

domingo, 4 de maio de 2014

Resenha Sombra

Título: Sombra
Autora: Suzy Lee
Editora: Cosac Naify

Este livro é indicado para quem:
- Gosta de livro-imagem;
- Tem imaginação;
- Aprecia a arte da ilustração.

Resumo:

Uma garotinha brinca com as sombras em sua casa. Os diversos objetos ajudam a montar cenas imaginárias de aventuras, que só terminam quando a hora do jantar chega. 

Resenha:

Sombra é o terceiro livro da trilogia de livros-imagem de Suzy Lee, composta por Onda, de 2008, e Espelho, de 2009. 
A autora e ilustradora sul-coreana brinca com os limites entre a luz e as sombras, por meio de uma garotinha que brinca com as sombras dos objetos de sua casa. 
Sozinha, a garota vai criando animais com o próprio corpo ou com outros objetos. É interessante perceber que a personagem está tão absorta em sua brincadeira que até esquece a maçã que está comendo inicialmente e só volta a tocá-la para introduzi-la na brincadeira. 
A garota brinca até com os seus próprios medos: um monstro ou lobo mal. E através dessa brincadeira consegue enfrentá-los e sublimá-los - na imagem de um lobo assustado que é consolado por ela. 
A menina se imagina na floresta como uma princesa vivendo aventuras, na maioria das vezes com animais ou dançando como uma bailarina. E assim a garotinha vai descobrindo e aceitando como parte de si mesma tanto os seus sonhos/desejos infantis como seus temores. 
Quando é chamada para jantar - ou, chamada à realidade, ao cotidiano - a garotinha está satisfeita com suas descobertas e consegue enxergar o que viveu como algo que aconteceu apenas na sua imaginação, como parte do seu processo de aprendizagem e crescimento.