domingo, 11 de maio de 2014

Resenha Holocausto Brasileiro

Título:  Holocausto brasileiro
Autora: Daniela Arbex
Editora: Geração Editorial

Livro indicado para quem:

- Gosta de livro-reportagem
- Tem algum interesse em hospitais psiquiátricos
- Tem estômago forte

Resumo:

Como explicar um hospital psiquiátrico no qual 70% dos internos não possuíam diagnóstico de doença mental? Como explicar porque o Estado não só permitia, como colaborava com o envio de homossexuais, prostitutas, alcoólatras, adolescentes engravidadas pelos patrões, esposas enviadas pelos maridos para que estes pudessem viver com as amantes? Daniela Arbex consegue explicar como essa máquina da conivência e submissão funcionava. Como o Estado se beneficiava disso. Como a sociedade ignorava o que era feito na cara de todos e como os funcionários e as famílias eram silenciados. Um relato investigativo chocante, que compara-se, sem exagero, ao horror vivido pelos judeus nos campos de concentração nazistas.  

Resenha:

Holocausto Brasileiro? Como assim? À primeira vista pode parecer uma força de expressão. Na certa um título empregado para aumentar a vendagem de livros num apelo à curiosidade mórbida de alguns leitores. Mas, não. Foi Holocausto mesmo, e vergonhosa e totalmente brasileiro. 
Me deparei com essa história assistindo a participação de Daniela Arbex no programa "Provocações", da TV Cultura. O que me chamou a atenção não foi exatamente a história absurda, revoltante, mas sim o fato de eu nunca ter ouvido falar dela. De ninguém nunca ter ouvido falar dela. Como podia um fato assim ser de conhecimento de tão poucos? Fiquei chocada. 
O livro mostra todas as facetas do maior hospital psiquiátrico do Brasil: O Hospital Colônia, em Barbacena, Minas Gerais. Nos dias de hoje, parte do Hospital foi transformado em museu, o "Museu da Loucura", que tenta dar um vislumbre de como eram tratados os pacientes do hospital. 
Em regime de internato, passavam por muito mais do que tratamentos de choque e medicações fortes e padronizadas - coisas que infelizmente já ouvimos muito por aí. Daniela Arbex descreve com horror a solidão de pacientes que jamais recebiam visitas; que não tinham o que beber, motivo pelo qual muitos tomavam a água insalubre de um esgoto que passava pelo local; que passavam fome, e comiam ratos e outros animais, muitas vezes vivos. 
Eram homens, mulheres e crianças que viviam juntos e nus, por não terem o que vestir ou onde ficar. Sem direito a qualquer tratamento médico - além dos eletrochoques - alguns chegavam a arrancar os próprios dentes devido a dor. 
As grávidas, que muitas vezes estavam nesta condições devido a abusos de outros pacientes, funcionários ou mesmo de homens poderosos, que as enviaram para o Colônia para livrarem-se do incômodo. Apesar disso, muitas passavam fezes na barriga, numa tentativa desesperada de salvarem seus bebês do aborto, mas que meses depois tinham seus filhos retirados de seus braços. 
Esse "tratamento" já seria doentio e cruel o bastante, sendo empregado a doentes mentais. Mas e saber que cerca de 70% dos internos não eram diagnosticados como doentes mentais? Eram pessoas NORMAIS. Pessoas enviadas para lá porque eram tristes ou tímidas demais. Militantes políticos ou epiléticos. Ou, melhor dizendo, pessoas vítimas da loucura de homens sãos que, numa tentativa torpe e cruel de extirpar os "indesejáveis" da sociedade, enviavam para Barbacena, no chamado "trem de doido", todos àqueles que incomodassem minimamente alguém poderoso. 
Enfim, histórias absurdas que, infelizmente, não são apenas histórias, mas pedaços de vidas destruídas para sempre pela omissão de uma sociedade entorpecida. Não durante dias e meses, mas por décadas. 

Pg 15
É preciso perceber que nenhuma violação dos direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto tempo sem a nossa omissão, menos ainda uma bárbara como esta. Em 1979, o psiquiatra italiano Franco Basaglia, pioneiro da luta pelo fim dos manicômios, esteve no Brasil e conheceu o Colônia. Em seguida, chamou uma coletiva de imprensa, na qual afirmou: "Estive hoje num campo de concentração nazista. Em lugar nenhum do mundo , presenciei uma tragédia como esta".

Pg. 27
Os deserdados sociais chegavam a Barbacena de vários cantos do Brasil. Eles abarrotavam os vagões de carga de maneira idêntica aos judeus levados, durante a Segunda Guerra Mundial, para os campos de concentração nazistas de Auschwitz. A expressão "trem de doido" surgiu ali. Criada pelo escritor Guimarães Rosa, ela foi incorporada ao vocabulário dos mineiros para definir algo positivo, mas, à época, marcava o início de uma viagem sem volta ao inferno. 

Pg. 204
A tolerância mórbida dos psiquiatras se estendeu ao meio médico, em cujas faculdades os cursos de anatomia são abastecidos por generosa quota de cadáveres provenientes de Barbacena. Os hospitais de crônicos da rede pública são "instituições finais", numa alusão à "solução final" do nazismo. A realidade brutal de nossos hospitais psiquiátricos, enquanto permanecer restrita aos meios profissionais, mostra-se inteiramente inócua, pois há uma acomodação, na qual todo aquele horror se torna banal. 

Indicação de vídeo: 
Documentário Em nome da razão: um filme sobre os porões da loucura, de 1979, do cineasta Helvécio Ratton. Filmado dentro do Hospital Colônia. 

2 comentários:

Evy disse...

PQP! Será que esse hospital ainda existe?
É o tipo da coisa que a gente nem imagina que exista por aqui, né?

Cíntia Mendes disse...

Existe, Evy, Mas não da forma que era antes. Ele sofreu uma transformação, junto com outros hospitais psiquiátricos. Junto ao novo hospital - no qual eu não sei se ainda há regime de internato - fica o Museu da Loucura. Muito chocante.

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