domingo, 10 de agosto de 2014

Resenha Onde a lua não está

Título: Onde a lua não está
Autora: Nathan Filer
Editora: Rocco

Este livro é indicado para quem:

-Gosta de narrativas criativas;
-Gosta de personagens complexos;
-Não se importa com narrativas lineares.


Resumo:

Já fazem 10 anos que Matthew perdeu o irmão, mas isso ainda o assombra. Eles eram crianças quando ele e seu irmão mais velho, portador de síndrome de Down, saíram para uma aventura noturna da qual seu irmão jamais voltou. Consumido pela perda e pela culpa, Matthew luta para entender o que aconteceu naquela noite, além de tentar conviver com a esquizofrenia que o abate.

Resenha:

Este é um livro para ser lido com calma, pois cada trecho pode dizer muito mais do que realmente está escrito. Não é apenas a batalha de um jovem de 19 anos contra a esquizofrenia, mas sua busca por redenção num episódio que mudou sua vida e a vida de sua família para sempre. 
Apesar de ser uma ficção, você esquece completamente disso tal o envolvimento que a história proporciona. Talvez essa veracidade se deva ao fato do autor, sendo um enfermeiro da área de saúde mental, saber exatamente do que está falando.
A dor do Matthew é tão palpável que me senti em seu lugar: lutando para entender minha doença, tentando acreditar que o que eu vejo e ouço realmente não está ali e buscando o perdão de uma pessoa que nunca poderá me perdoar.
O autor abordou muito bem essas questões psicológicas, sobre como é estar dentro de uma mente tão conturbada, e isso não só pelo fato de escrever com tanta profundidade, mas pelo modo como o fez.
O tempo inteiro somos surpreendidos pelo modo de escrever de Filer. As idas e vindas no tempo são uma constante, bem como as mudanças de formatação no texto: ora datilografado, ora em letra de imprensa, ora esquematizado a fim de dar ênfase a um pensamento. Isso sem contar as ilustrações e os títulos dos capítulos, que impulsionam a uma reflexão à parte.
Bem, o que mais dizer de um livro realista, mas com uma carga poética tão intensa ao ponto de fazer chorar? É perfeito, lindo. Diria que é um livro sobre o amor e sobre a redenção. E também sobre uma doença esperta como uma serpente.

Pg. 17
Enterrei  a cabeça nas mãos, para que mamãe ou papai, caso se virassem, pensassem que eu estava chorando com eles.
Eles não se viraram. Nunca senti o apertão tranquilizador da mão de alguém na minha perna, eles nunca disseram que tudo ia ficar bem. Ninguém cochichou, Shhhh, shhhh. Então eu entendi – eu estava completamente sozinho.

Pg. 19
Também ainda não consigo falar no assunto. Tenho uma chance de fazer isso direito. Preciso ter cuidado. Para desdobrar tudo corretamente, para eu saber como dobrar de novo, se ficar complicado demais. E todo mundo sabe que a melhor maneira de dobrar bem uma coisa é seguir as dobras que já estão ali. 

Pg. 22
Não é o tipo de coisa que você ache que vai lhe fazer falta. Talvez você nem mesmo perceba isso naqueles milhares de vezes , sentado entre sua mãe e seu pai no sofá grande e verde, com o irmão mais novo no carpete atrapalhando a visão da TV. Talvez você nem mesmo tenha notado.
Mas nota quando ele não está mais ali. Nota muitos lugares onde ele não está maise ouve muitas coisas que ele não diz mais. Eu ouço. Ouço o tempo todo.

Pg. 26
É como se cada um de nós tivesse um muro que separa nossos sonhos da realidade, mas o meu tinha rachaduras. Os sonhos podem se espremer e passar por ali até ficar difícil saber a diferença.
Às vezes o muro se rompe completamente. É quando os pesadelos aparecem.

Pg. 67
Eu tenho uma doença, uma doença com a forma e o som de uma serpente. Sempre que aprendo alguma coisa nova, ela aprende também.

Pg. 190
É o que fazem os rótulos. Eles grudam.
Se as pessoas pensam que você é LOUCO, então tudo o que fizer, tudo o que pensar, terá LOUCO estampado.


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