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domingo, 25 de janeiro de 2015

Inquietudes: As muitas São Paulos: loucura e magia numa terra de ninguém

A minha São Paulo só é minha cidade porque, antes, foi a cidade de meus pais. Ambos estrangeiros nesta terra de alucinados: um vindo do interior do estado, outro de Pernambuco. Sua cidade por escolha, minha cidade por nascimento. 
A São Paulo da minha infância é Pirituba. Pirituba era minha cidade inteira e era mais que uma cidade: era um país, onde não havia limites para minhas aventuras.
Criada num parque municipal, com uma extensa área verde, do qual meu pai era caseiro, eu era juíza, princesa e heroína de um país cujas pedras e árvores tinham meu nome. E não podia querer mais. Passava meus dias em intensas jornadas, enfrentando perigos - por vezes imaginários -, proferindo mandos e desmandos e chegando exausta em meu castelo por ter salvado o mundo mais de uma  vez no dia. 
Pirituba para mim era isso: um reino mágico. E São Paulo, uma Terra de perigos e encantos sem fim. Meu reino ruiu aos dez anos de idade, e só voltei para conferir os destroços oito anos depois. 
A São Paulo da minha juventude e amadurecimento é Interlagos, onde vivo. Mas é também Vila Mariana, Santa Cecília e Perdizes, onde estudei. E Pinheiros, Campo Belo e Santo Amaro, onde trabalhei. Mas a São Paulo mais emblemática, a que está marcada mais profundamente em minhas memórias ainda é Pirituba. 
No entanto, se eu tivesse que eleger um lugar-símbolo do que a cidade é hoje para mim, escolheria a Rua Barão de Itapetininga. 
18 anos, morando sozinha em São Paulo e buscando emprego. Nada mais natural que, com uma dezena de currículos embaixo do braço e esperança no coração, eu fosse parar nessa famosa rua. O que eu não esperava era o que se seguiu: perdida na calçada e tentando encontrar um número de edifício em meio a tantos arranha-céus, fui interpelada por um indivíduo que, apressado, me empurrou gritando estar atrasado. Não sei o que chamou minha atenção primeiro: o fato dele estar gritando seu atraso enquanto olhava para um relógio de pulso que não existia; a barba a la Bin Laden; a pasta executiva que segurava que, de tão velha, estava aberta nos cantos; ou o fato de estar de camisa social e blazer, mas nu da cintura para baixo. 
Foi naquele minuto entre o cômico e o trágico que eu soube onde estava me metendo: numa cidade que desperta sonhos e loucura. Que tem por emblema o alucinado e o executivo. Que te sufoca entre os múltiplos compromissos, incluindo os de lazer. Sim, aqui até o lazer é impositivo. 
São Paulo não aceita o mimimi, dizem alguns. Não há espaço para o chororô, dizem outros. E eu? Como faço eu? Com minha garganta em largo nó, meus olhos tal qual pimenta? Engolir, sorrir e correr, sempre. Aqui o que importa é o movimento. "Cidade para quem topa qualquer parada, não para quem para em qualquer topada." 
Às vezes, quando sou empurrada, fecho os olhos e espero ser salva por aquela menina cujas pedra e árvores tinham seu nome. 

C.M.
04/11/2013

1 comentários:

Evy disse...

Fiquei imaginando a pequena Katniss!

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